É difícil refletir, no momento, sobre geopolítica. As decisões caóticas do presidente norte-americano, uma espécie de Calígula no ápice da insanidade, mudam, diariamente, as relações de poder entre países e grupos de nações. Nicolás Maduro, por exemplo, acaba de ser inocentado da acusação de chefiar o Cartel de Los Soles (inexistente, como as armas letais de Saddam Hussein), principal motivo pelo qual o ditador venezuelano foi abduzido de Caracas, através de operação militar mirabolante, muito parecida à que resultou no assassinato de Bin Laden, ou seja, sem a observância do devido processo legal, à semelhança dos ataques a barcos no Caribe e no Pacífico que estariam, supostamente, transportando drogas para os Estados Unidos, verdadeiras ações de pirataria que resultaram na morte de mais de cem pessoas.
A única certeza, para frustração dos apressados campeões da liberdade que festejaram a iniciativa de Trump, é a de que o povo venezuelano não foi obsequiado, até o presente momento, com a democracia que almejava, após 30 anos de ditadura repressiva e sanguinária. O regime chavista se reinventou e, servilmente, se comprometeu a remeter petróleo para os Estados Unidos, em detrimento dos embarques, sobretudo, para a China, destino de 80% do recurso natural de origem venezuelana. Ademais, a Venezuela será obrigada a reverter o valor arrecadado pela venda de seu petróleo na compra de produtos norte-americanos. Qualquer semelhança com o vetusto Pacto Colonial, sistema mercantilista imposto por metrópoles às suas colônias, cujo comércio era monopolizado pelo colonizador, não me parece mera coincidência.
Preocupante, no entanto, não foi a abdução do decadente ditador venezuelano, mas a subsequente retórica improvisada e caótica de Trump. Entre ameaças e promessas, desqualificou a oposição a Maduro, na figura de Corina Machado, sua rival vitoriosa na disputa pelo Nobel da Paz, sem qualquer menção à restauração dos direitos políticos ou humanos do povo venezuelano. Mas, nas entrelinhas, mandou claro recado ao mundo sobre seus principais objetivos: reerguer a ameaçada hegemonia dos Estados Unidos no hemisfério ocidental, neutralizando as ingerências de concorrentes, a fim de garantir a livre exploração de recursos estratégicos em países satelizados. Ao inaugurar a implementação de sua Realpolitik, invadiu a Venezuela, atualizando a prática do Big Stick, com o propósito de controlar as Américas, declarando-as região de inconteste domínio norte-americano. Ninguém tasca, ninguém come.
Suas próximas intervenções podem ocorrer na Groenlândia, território autônomo do Reino da Noruega, cujo controle é considerado uma questão de segurança nacional, além da cobiça que seus recursos naturais despertam; em Cuba, a fim de subjugar a insubordinação histórica da ilha, realizando o sonho dourado do Secretário de Estado Marco Rubio, de ascendência cubana, mas cuja família jamais foi importunada pelo regime castrista; no México e Colômbia, sob o pretexto de combater o narcotráfico, convenientemente rebatizado de narcoterrorismo, o que daria respaldo à abdução de Maduro e dissimularia sua verdadeira motivação, ou seja, o sequestro do petróleo venezuelano; no Panamá, com o intuito de retomar o Canal que conecta o Atlântico ao Pacífico. Restaria saber se estaria interessado em recursos, cartéis de narcotráfico ou instalações de outros países da região, como o porto peruano de Chancay, construído pela China ao custo de US$ 3,6 bilhões e que substituiria, em parte, o Canal do Panamá.
Quanto ao Brasil, o malogro do tarifaço e das medidas coercitivas contra autoridades do judiciário brasileiro deve-se, não somente aos esforços do Itamaraty e à lendária esperteza e boa estrela de Lula, mas à percepção de Trump de que nada teria a lucrar ao patrocinar os arroubos ideológicos de Rubio, que vinha sendo monitorado pela extrema direita brasileira, na pessoa de Eduardo Bolsonaro. Mesmo que sua chantagem lograsse, IMEDIATAMENTE (na grafia de insolente missiva a Lula), a suspensão das ações contra o pai do ex-deputado, a recondução do apenado à presidência só seria possível através de um golpe de estado de imprevisíveis consequências (o Brasil não é e não será a Venezuela). A alternativa seria esperar até 2027, a 2 anos do término de seu mandato, a depender da vitória do ex-presidente nas eleições de 2026, o que, atualmente, não parece fácil, tendo em vista o sucessor escolhido e os combates intestinos da centro-direita.
Ao retirar o guarda-chuva de proteção à dinastia Bolsonaro, deixando-a à intempérie, Trump apressou-se a colocar em prática sua repentina “alquimia” com Lula e abrir negociações que persistem até os dias de hoje, envolvendo a remoção de suas ameaças tarifárias mediante melhores condições de acesso para exportações norte-americanas, petróleo e terras raras. Contudo, o temor, que ninguém ousa externar, é que as negociações respinguem no agronegócio brasileiro, cujo invejável desempenho compromete a competividade de produtos norte-americanos, sobretudo, da soja, e alimenta boa parte do 1.4 bilhão de chineses, cujo bem-estar passa ao largo das preocupações de Trump. O risco é maior na medida em que as exportações para a China registraram, em 2025, um aumento de 6%, totalizando mais de US$ 100 bilhões, dos quais US$ 37.2 milhões em produtos agropecuários. Barbas de molho.